Franois Mitterrand quer ser lembrado como o grande construtor da Europa. Alguns erros polticos e revelaes sobre seu passado ameaam abalar essa imagem.

Sofrendo de cncer na prstata, Mitterrand vive dias difceis no fim de seu mandato e de sua vida.

Sua ligao com a extrema direita na juventude, revelada este ano -em parte, por vontade do prprio presidente, que quer acertar contas com seu passado-, chocou os franceses.

Mitterrand definiu suas posies do passado como erros da juventude. O fato  que, aps a guerra, aos poucos ele se imps como lder da esquerda e maior adversrio do general Charles de Gaulle.

Faanha 

Em 1965, aos 49 anos, ele alcanou a faanha de levar De Gaulle ao segundo turno da eleio presidencial.

Quatro anos depois, os socialistas preferiram escolher Gaston Defferre como candidato e naufragaram, com apenas 5% dos votos.

Mitterrand retomou as rdeas do partido em 1971, no congresso de Epinay. No ano seguinte, assinou com o Partido Comunista o programa comum da esquerda.

A aliana durou cinco anos e s beneficiou os socialistas, que roubaram boa parte do eleitorado cativo dos comunistas.

Foi com a ajuda desses votos que, finalmente, Mitterrand alcanou seu objetivo, derrotando por pouco Valry Giscard d'Estaing na eleio presidencial de 1981.

Em 1988, foi reeleito facilmente. Aps dois anos de coabitao com Jacques Chirac, um premi de direita, Mitterrand bateu o prprio Chirac no segundo turno.

O balano de seus dois mandatos  polmico. Para uns, foi um perodo de paz em que a Frana enriqueceu; para outros, a maioria dos compromissos de campanha foi esquecida. Mesmo  esquerda, muitos o vem como um homem obcecado pelo poder e impiedoso.

Vacilaes 

Na poltica estrangeira, algumas vacilaes marcaram os ltimos anos do seu governo.

O presidente no percebeu a tempo a queda do comunismo: no previu a queda do Muro de Berlim em 1989, e chegou a flertar com os golpistas de Moscou em 1991.

Apesar de criticado por seus adversrios, devido s contradies que marcaram sua carreira, Mitterrand se manteve coerente em pelo menos um ponto: a defesa da Unio Europia.

J em 1951, durante um congresso socialista, o futuro presidente dizia que  nada  possvel, muito menos a paz, se a Frana no for o agente da Europa.

Treze anos depois, Mitterrand escreveu:  Creio que a Europa corresponde  vontade da histria. Em 1973, ameaou renunciar  liderana do partido, dividido entre pr e antieuropeus.

Em 1992, o presidente reviveu seus grandes momentos de campanhas do passado ao se engajar na luta pela aprovao em plebiscito do tratado de Maastricht, que prev a moeda nica na Europa.

Mitterrand aceitou participar de um debate na televiso contra Philippe Sguin, deputado conservador que se opunha ao tratado.

Apesar da diferena de idade (75 anos contra 49,  poca), Mitterrand se mostrou jovial e foi considerado vencedor. O tratado foi aprovado por pequena margem.

Mas h setores que se opem  unio sem fronteiras. A Frana foi a principal responsvel pelo adiamento da livre circulao de pessoas no interior da Comunidade, prevista para janeiro de 95.

O motivo alegado foram dificuldades para implantar o banco de dados de todas as polcias europias, em Estrasburgo. Os franceses receiam o trfico de drogas e a imigrao clandestina.

Por fim, os agricultores so a classe social que mais se ope  UE. Eles se queixam do fim de vrios subsdios, extintos por Bruxelas.  comum encontrar espantalhos com cartazes de protesto nas estradas do interior francs.

